Felipe Sztutman

← obras

Cachoeira

2012 · Vale do Anhangabaú e Viaduto do Chá, São Paulo
Cachoeira
Aerea viaduto · foto: Diego Bis

Em 2012, fui convidado para criar uma obra de arte pública no centro de São Paulo, como parte da primeira edição da URBE — Mostra de Arte Pública, promovida pelo CCBB. Escolhi revelar algo invisível: o Córrego das Almas, canalizado sob o pavimento do Vale do Anhangabaú. Desenhei um caminho de luz usando 500 metros de cabo eletroluminescente, segmentado em trechos de 40 metros, que descia do Viaduto do Chá até o vale, traçando a memória do rio que um dia correu ali.

A obra não decorava o espaço — ela revelava uma infraestrutura soterrada. São Paulo inteira é atravessada por rios que foram canalizados, escondidos sob o asfalto durante o processo de urbanização. A Cachoeira tornava visível essa camada esquecida da cidade, propondo uma mudança de percepção sobre o território que ocupamos. O cabo luminoso era minha tinta, a tecnologia era o meio. Durante cinco noites, das 20h às 22h, o córrego voltou a existir como luz.

Eu tinha 25 anos. Já trabalhava com vídeo, programação visual e live cinema no estúdio BijaRi, mas essa foi minha primeira intervenção urbana de grande escala. A técnica exigiu estudo rigoroso — não só da especificação do cabo eletroluminescente, mas da topografia do vale, da história do córrego, de como montar uma instalação temporária em espaço público. A Revista IstoÉ comparou a obra às cachoeiras de Olafur Eliasson em Nova York. Mas o gesto era paulistano: revelar o que está subentendido, abrir uma reflexão, não fechar uma resposta.

Treze anos depois, esse mesmo impulso — tornar visível o invisível — reapareceu na Floresta Utópica (Farol Santander, 2025). Lá, revelei sistemas naturais invisíveis através de projeções generativas. Aqui, revelei um rio enterrado através de luz contínua. A Cachoeira é a raiz. É onde aprendi que arte pública não é ornamento — é mudança de estado de percepção.

Ficha Técnica

Concepção Felipe Sztutman
Curadoria Alessandra Mader, Felipe Brait, Julia Clemente

Publicações

100 Anos de Arte Moderna: a cena contemporânea Carlos Zibel Costa · p. 64–67
Perfil dedicado ao artista com reprodução e contextualização de Cachoeira ao lado de Mantiqueira e OCEANVS.

Imprensa