Floresta Utópica
Em 2012, fui convidado para criar uma obra de arte pública no centro de São Paulo. Escolhi revelar algo invisível: o Córrego das Almas, que corre escondido sob o pavimento do Vale do Anhangabaú. Com cabos eletroluminescentes, concebi a obra “Cachoeira”, evidenciando como tentamos controlar e até mesmo ocultar os rios que sustentam nossas cidades.
Essa experiência inicial motivou o aprofundamento sobre nossa relação com a natureza urbana, levando a uma investigação que culmina hoje em “Floresta Utópica”. Da água canalizada, a pesquisa evoluiu para sistemas mais complexos: como uma floresta inteira funciona, respira e se regenera a partir de redes invisíveis de interdependência.
A partir de imersões em diversos biomas brasileiros e estudos sobre temporalidades naturais, foi possível identificar o descompasso entre ritmos urbanos e ciclos orgânicos. Na cidade, tudo é urgente, ruidoso, artificial. Na floresta, o tempo opera em outras escalas: uma semente pode levar 30 dias para germinar, uma árvore, décadas para alcançar sua plenitude. Minha experiência com agrofloresta e sementes crioulas revelou que a natureza possui suas próprias temporalidades e instrumentos de regeneração.
Na AYA, materializamos essa experiência de tempo dilatado a partir de uma instalação imersiva de 20 minutos, onde nossa equipe multidisciplinar desenvolve projeção mapeada, design sonoro e aromas que interpretam os ciclos florestais. A proposta não reproduz a natureza literalmente, isso seria impossível e perderia potência. Preferimos evidenciar as conexões invisíveis entre plantas, fungos, solo e água, destacando as redes energéticas que fazem de uma floresta um organismo único.
A escultura luminosa no centro do espaço conecta este trabalho às minhas pesquisas anteriores sobre a presença da água. Os aromas de madeiras e essências vegetais ativam memórias afetivas, convocando todo o corpo para esta experiência. O roteiro audiovisual revela tempestades, germinação, crescimento, florescimento e frutificação, um ciclo contínuo de regeneração, sem começo nem fim definidos.
Esta floresta utópica não está apenas no futuro: ela existe como potência no presente, esperando que desenvolvamos a sensibilidade necessária para habitá-la.
Obra autoral de Felipe Sztutman sobre temporalidades florestais e sistemas invisíveis de interdependência, estruturada por projeção, aromas e uma escultura de luz em forma de cachoeira.
- Número
- 014
- Estatuto
- obra autoral de Felipe
- Regime de leitura
- espaço / circulação / colaboração
- Status
- REALIZADA
- Ano
- 2025
- Local
- Farol Santander São Paulo
- Contexto
- série dos Elementos / terra
- Tipo
- EXPOSICAO IMERSIVA
- Série
- Os Elementos
- Técnica / medium
- projeção · espelhos · aromas · escultura de luz
- Realização
- AYA Studio · Farol Santander
- Local
- Farol Santander São Paulo, 2025
- Duração
- Instalação imersiva de 20 minutos
- Estrutura
- Projeção mapeada, design sonoro, aromas e escultura luminosa central
Na AYA, a obra se constrói pela tradução de processos ecológicos em linguagem espacial. Em vez de reproduzir a natureza literalmente, a equipe organiza imagem, som, aroma e luz para tornar sensíveis as redes invisíveis entre plantas, fungos, solo e água.
Conexões públicas que situam esta obra no arquivo antes do texto narrativo.
Floresta Utópica deve ser lida no arquivo como exposição autoral de Felipe e como desdobramento tardio de Cachoeira e Mantiqueira: a água e os sistemas invisíveis reaparecem aqui não como intervenção urbana, mas como ecologia imersiva.