sem título, para Córrego Rio Verde
Em outubro de 2013, fiz uma intervenção luminosa no Beco do Batman, na Vila Madalena, por onde corre canalizado o Córrego Rio Verde. Esse beco ilustra o tipo de relação que os paulistanos mantinham com seus rios no século passado: todas as casas estão viradas de costas para o córrego, visto como lugar de despejo de lixo e esgoto. Era o mesmo gesto da Cachoeira, um ano e meio antes — revelar através da luz um rio invisível, enterrado debaixo da cidade. Mas dessa vez sem o respaldo de nenhuma instituição, sem equipe de produção, sem verba. Era eu, o projeto, e o espaço público em sua forma mais crua.
Construí uma maquete 3D do beco dentro do Rhinoceros a partir de fotos de satélite e medidas in loco. Com o Grasshopper, simulei diferentes composições tendo como output o comprimento individual de cada cabo eletroluminescente — eles vinham em segmentos de 40 metros, então o design paramétrico precisava resolver não apenas a forma, mas a logística real do material. Cheguei em 240 metros de luz, suspensos no centro da rua e estruturados por seis aros de bicicleta e cabos de aço. Billy Castilho e Pablo Gallardo, da Tag & Juice, ofereceram suporte: loja aberta até 22h no dia da montagem, energia elétrica, escadas, e os aros de bicicleta. Jan Nehring e Wesley Lee Yang, colegas da FAU que já haviam participado de outras instalações comigo, toparam montar a obra. Boleta, o grafiteiro que estava pintando um muro no beco naquele dia, deu o aval informal para intervir no lugar — sem isso, não seria possível.
Ao anoitecer de 5 de outubro, estava instalada a obra. Aquele espaço que durante o dia é muito movimentado costuma ficar quase inabitado durante a noite — não naquele dia. Muitos grafiteiros estiveram conosco durante a montagem, e eles, mais do que ninguém, sentiram a interferência física da luz no espaço e puderam experimentar este efêmero e “novo” lugar, aquela situação. A instalação ficou montada por um período curto — não podia contar com seguranças ou acesso controlado. Era luz no espaço público real, com todas as suas regras próprias, seus donos informais, seu fluxo de carros, seus imprevistos. Parte da série LUZCIDADE, que completei um mês depois na Serra da Mantiqueira.
Ficha Técnica