2047: Arquivo de depois
Todo dia uma máquina lê o noticiário real sobre terras raras. O território que é minerado, a potência que processa, o mercado que precifica. Uma triagem separa o que interessa, e o que passa vira semente de um capítulo datado de 2047. O texto sai impresso na hora, numa matricial de papel contínuo, no ritmo lento e barulhento que essas máquinas têm. Quem está na sala ouve a obra escrever antes de conseguir ler.
A temporada é de 32 dias, e a duração é a forma. Em dois dias, uma impressora imprimindo é um gesto. Em 32 dias, o papel vira arquivo material, uma pilha que cresce em público e que qualquer pessoa mede com o corpo. Quem volta na terceira semana encontra mais papel do que deixou. A linha do tempo da exposição fica no chão da sala.
O motor roda inteiro em máquina local. Um modelo de 27 bilhões de parâmetros escreve na placa de vídeo, um modelo pequeno faz a triagem no processador, e nada disso depende de nuvem. Foi decisão de obra antes de ser decisão técnica. Uma peça que fala de mineração, energia e água para alimentar datacenter não podia terceirizar a própria escrita para um datacenter. A regra que a Giselle cravou desde o começo é que a rede não cai nunca, e a única forma de garantir isso foi não precisar dela.
A projeção que acompanha o texto também nasce em casa, numa única placa de consumidor. Levar vídeo com áudio para dentro dessa restrição exigiu medir de novo o que o ecossistema já dava por sabido, e a medida virou repositório público. Trabalho técnico e trabalho de obra são a mesma matéria aqui, e por isso os dois estão abertos.
Faço 2047 com a Giselle Beiguelman. Ela esteve na banca do meu trabalho final na FAU em 2014, e agora assina a obra comigo, o que já é uma torção de tempo do tamanho da peça. A voz do texto vem do trabalho dela, e a curadoria das fontes é feita a quatro mãos, com gente decidindo o que entra. A máquina escreve sozinha, mas não escolhe sozinha.
Revelar o invisível é o que atravessa tudo que eu faço, do Córrego das Almas enterrado em 2012 às redes micorrízicas da Floresta Utópica em 2025. Aqui o invisível é a cadeia que sustenta a própria máquina que escreve. O minério, a água, a energia, o contrato. 2047 imprime isso em papel e deixa a pilha crescer até virar volume no espaço.
Uma máquina lê o noticiário real sobre terras raras e escreve todo dia um capítulo datado de 2047. O texto sai numa impressora matricial, em papel contínuo, e a pilha cresce em público durante 32 dias.
- Número
- 019
- Estatuto
- obra em curso
- Regime de leitura
- sistema / corpo / mecanismo
- Status
- CONFIRMADA · EM PRODUÇÃO
- Ano
- 2026
- Local
- Casa Firjan, Rio de Janeiro
- Contexto
- máquina de escrita / arquivo material / mineração e infraestrutura
- Tipo
- INSTALACAO
- Técnica / medium
- máquina de escrita autônoma · impressão matricial em papel contínuo · projeção
- Duração
- 32 dias (15/10 a 16/11/2026)
- Realização
- Festival Futuros Possíveis · Casa Firjan
- Entrada
- Um coletor lê todo dia o noticiário real sobre terras raras, e uma triagem humana decide o que entra
- Escrita
- Um modelo local escreve capítulos datados de 2047 a partir da notícia aprovada
- Saída
- Impressora matricial em papel contínuo, texto impresso ao vivo durante a visitação
- Acúmulo
- O papel não é recolhido, e a pilha cresce dia após dia como linha do tempo física da exposição
- Soberania
- O motor inteiro roda em máquina local, sem chamada de nuvem, e a rede da sala pode cair sem parar a obra
- Pergunta
- Quem escreve o futuro, quando a máquina que escreve depende do minério que o presente arranca do chão?
- Abertura
- 15 de outubro de 2026
- Encerramento
- 16 de novembro de 2026
- Temporada
- 32 dias de escrita e impressão contínuas
- Contexto
- Festival Futuros Possíveis, Casa Firjan, Rio de Janeiro
2047 é obra de autoria compartilhada com Giselle Beiguelman, do conceito à voz do texto. A curadoria das fontes que alimentam a máquina é feita a quatro mãos, e a decisão sobre o que entra no arquivo nunca é automática.
Superfícies de trabalho, código e medidas publicados enquanto a obra é feita.
2047 está confirmado e em produção, com abertura em 15 de outubro de 2026 na Casa Firjan, dentro do Festival Futuros Possíveis. O arquivo atual descreve a obra pelo que já está construído e medido. Registro fotográfico, créditos expandidos de produção e o arquivo público de contos entram depois da abertura.