A interface como espaço de leitura
Tenho pensado cada vez mais na interface não como acabamento, mas como zona de leitura. Ela não entra no trabalho apenas para organizar um uso ou facilitar uma navegação. Em muitos casos, é justamente ali que a obra começa a respirar em público. Quando uma parede, um launcher, um buffer, uma cena ou um arquivo passam a sustentar ritmo e presença, eles deixam de ser apenas suporte técnico. Tornam-se parte da experiência.
Isso me interessa porque desloca a velha separação entre bastidor e obra. Em vez de esconder a condição material do trabalho, procuro deixar que ela apareça com temperatura própria. Não como explicação, nem como demonstração de método, mas como linguagem. Há uma diferença importante entre mostrar um processo e deixar que o processo produza forma. O que busco no ateliê é essa segunda condição.
2047 como regime visível
Em 2047, essa questão tem ficado mais nítida. O projeto começa a se comportar menos como um conjunto de partes isoladas e mais como um campo coerente, em que imagem, texto, voz, projeção, impressão e arquivo compartilham uma mesma gravidade. Isso não significa que tudo esteja resolvido. Ao contrário: significa que o trabalho já encontrou um modo de aparecer enquanto ainda se transforma.
Tenho observado que alguns elementos antes vistos como preparação passaram a ganhar presença real dentro da pesquisa. Personagens, takes, textos, manifestos, notas visuais e estruturas de circulação já não funcionam apenas como apoio. Eles participam da própria poética. Isso me interessa muito, porque amplia a obra sem diluí-la. Em vez de uma imagem central cercada de materiais auxiliares, surge uma constelação em que diferentes superfícies sustentam a mesma tensão.
Superfícies operativas
Há algo de decisivo acontecendo quando a linguagem nasce de superfícies operativas. Gosto dessa formulação porque ela me afasta de uma ideia excessivamente ilustrativa de obra. Nem sempre a força pública de um trabalho aparece primeiro numa imagem final. Às vezes ela surge numa tabela viva, num caderno automático, num painel de organização, numa ficha refeita, numa estrutura de circulação entre arquivos. O que me interessa nessas superfícies é que elas não são neutras. Elas condensam escolhas de tempo, de atenção, de memória e de relação entre coisas.
No meu processo, software, arquivo e presença física têm se contaminado cada vez mais. Isso vale para instalações, para jogos, para interfaces e também para a escrita. O ateliê não é apenas o lugar onde uma obra é produzida; ele é também o lugar onde certos sistemas de leitura se testam. Quando uma estrutura começa a funcionar, ela não serve apenas para organizar o trabalho. Ela devolve perguntas para ele.
O problema do achatamento
Um risco constante, para mim, é que um mundo complexo seja resumido cedo demais por uma superfície incapaz de sustentá-lo. Isso vale para textos de apresentação, páginas de projeto, fichas, imagens soltas e formatos apressados de comunicação. Nem toda síntese é clareza. Muitas vezes, a síntese precoce apaga as diferenças que dão corpo ao trabalho.
Tenho tentado prestar atenção a isso ao construir formas públicas de circulação. Como falar de uma obra sem reduzir sua densidade? Como fazer com que uma interface, uma página, um arquivo ou uma instalação preservem camadas de tempo e de matéria, em vez de achatá-las? Essas perguntas atravessam não apenas o que mostro, mas também como organizo o que mostro.
Talvez uma parte importante da pesquisa esteja justamente aí: na criação de superfícies capazes de suportar complexidade sem se tornarem opacas. Não se trata de simplificar tudo, nem de transformar a experiência em código fechado. Trata-se de encontrar uma gramática pública suficientemente clara para convidar leitura e suficientemente densa para não perder corpo.
Arquivo, memória e circulação
Tenho voltado ao arquivo não como depósito, mas como motor. O arquivo, quando ativo, não conserva apenas o passado: ele reorganiza o presente. Muitas obras se transformam quando reencontro documentos, versões, restos, anotações e imagens que estavam em suspensão. Esse movimento de retorno não é nostálgico. Ele produz novas articulações.
A memória, nesse contexto, não aparece como tema abstrato, mas como operação concreta. Está na forma de nomear arquivos, de construir relações entre materiais, de decidir o que permanece visível, de criar passagens entre texto, imagem, software e espaço. Também por isso tenho pensado o szt.link como extensão dessa pesquisa: não apenas um endereço, mas um ambiente de circulação em que diferentes obras e camadas de processo podem conviver sem perder singularidade.
Continuidade habitável
Uma palavra que tem me acompanhado é continuidade. Não no sentido de repetição, mas de habitabilidade. Quero que o trabalho possa ser vivido de dentro, percorrido, retomado, reaberto. Uma obra ganha força quando cria condições para que seus elementos permaneçam em relação, mesmo quando mudam de forma.
No ateliê, isso significa construir cenas, arquivos, interfaces e estruturas de leitura que não sejam descartáveis. Significa também aceitar que a pesquisa pública não começa só quando a obra está encerrada. Em alguns momentos, ela já está presente na maneira como um sistema se organiza, como um texto respira, como uma parede recebe projeção, como uma impressão se torna parte de um ambiente.
É nesse ponto que reconheço uma direção importante do meu trabalho hoje: fazer com que os meios de produção deixem de ser invisíveis sem se tornarem mera explicação. Quando isso acontece, técnica, linguagem e presença passam a dividir o mesmo espaço.
Uma gramática em formação
Sinto que estou construindo, aos poucos, uma gramática visual e textual em que arquivo, interface, instalação, software e memória deixam de aparecer como campos separados. Não se trata de unificar tudo à força, mas de perceber como certas recorrências de ritmo, estrutura e presença atravessam obras diferentes.
Essa gramática ainda está em formação, e talvez seja justamente isso que lhe dá energia. O mais importante, para mim, é que ela já pode circular publicamente sem perder a espessura material que a originou. É nessa circulação que o trabalho testa sua voz e encontra novas formas de permanecer aberto ao processo artístico em andamento.