diário de ateliê

2047 no Ateliê

Materialidade, interface e escala na pesquisa artística em curso

2026-08-10

Uma mudança de escala

Nos últimos meses, percebi uma inflexão importante no meu trabalho. Não se trata apenas de retomar temas que atravessam obras anteriores, mas de entender que cada reaparição pede um corpo específico, uma condição própria de existência e um instrumento à altura dessa condição. Esse deslocamento parece sutil à primeira vista, mas ele reorganiza profundamente a maneira como penso imagem, espaço, duração e presença.

Tenho voltado minha atenção para o modo como uma obra deixa de ser apenas formulação conceitual e passa a depender, de forma cada vez mais evidente, do regime material que a sustenta. Isso envolve proporção, temperatura, escala, ruído, cálculo, suporte, circulação da imagem e a política embutida em cada escolha técnica. Em vez de tratar essas camadas como bastidor, venho entendendo que elas são parte da própria linguagem.

2047 como organismo

É nesse contexto que 2047 se tornou um ponto decisivo da minha pesquisa. A obra não está sendo pensada como ilustração de uma ideia prévia, nem como tradução visual de uma narrativa. Ela vem se constituindo como um organismo: algo que exige medida exata, comportamento espacial, tempo de permanência, densidade de superfície e uma relação específica entre máquina e percepção.

Quando falo em organismo, não me refiro a uma metáfora decorativa. Penso numa obra que funciona por equilíbrio instável entre elementos materiais e imateriais: parede, projeção, processamento, luminosidade, ruído, calor, textura, distância do corpo, fadiga do olhar. Tudo isso interfere no que a imagem pode ser. A linguagem não chega pronta para depois ocupar um suporte; ela nasce na fricção com esse regime de funcionamento.

Esse entendimento me interessa porque desloca a noção de obra em trânsito para um campo mais concreto. A continuidade, para mim, já não aparece apenas como permanência de motivos ou como recorrência de memória. Ela passa a existir também como recalibração técnica, física e sensorial. Cada nova montagem ou estudo reabre a pergunta sobre o que a obra pede para existir de fato.

Do léxico geral à cena concreta

Por muito tempo, minha escrita pública se apoiou em termos mais amplos: arquivo, passagem, memória, continuidade, deslocamento. Continuo reconhecendo a força dessas palavras, porque elas ainda nomeiam aspectos reais da pesquisa. Mas hoje sinto necessidade de aproximar essa escrita do que efetivamente acontece no ateliê.

A experiência concreta do trabalho tem trazido outras imagens e outros vocabulários: proporção de parede, razão de escala, circulação de ar, refrigeração, superfície medida, marcação no chão, interface, estrutura de apoio, restos de uso, objetos de contenção, dispositivos de leitura. Não me interessa transformar isso em fetiche técnico. O que me importa é perceber que esses elementos já não são periféricos. Eles participam da construção de sentido.

Talvez o ponto mais importante seja este: a obra começa a falar a partir do seu modo de sustentação. E, quando isso acontece, o texto também precisa mudar de registro. Em vez de partir apenas de conceitos gerais, ele pode nascer de uma cena precisa, de uma situação material, de uma relação entre corpo, máquina e espaço.

Entre cálculo e contraritmo

Tenho pensado muito em sistemas que medem, extraem, resfriam, prolongam e calculam. Essas operações não aparecem apenas como tema; elas atravessam a cultura visual, a organização do espaço e a experiência cotidiana. Em diferentes frentes da minha pesquisa, encontro formas de racionalização que prometem eficiência, controle e continuidade, enquanto reorganizam silenciosamente o ambiente e a percepção.

O que me interessa artisticamente é abrir, dentro desses sistemas, um contraritmo. Não no sentido de oposição simples, mas como gesto de atenção e desvio. Como produzir imagem quando a imagem já nasce administrada? Como construir duração num ambiente regido por aceleração e cálculo? Como fazer uma instalação que não apenas represente essas forças, mas que deixe ver sua ação sobre o corpo e sobre o espaço?

É aí que software, interface e instalação deixam de ser apenas meios. Eles se tornam campos de pensamento. Cada ajuste técnico pode deslocar o sentido da obra. Cada decisão espacial altera a leitura. Cada regime de funcionamento carrega uma forma de mundo.

Paisagem, memória e regime material

Outro aspecto que vem ganhando nitidez no ateliê é a relação entre paisagem e regime material. Tenho me interessado menos por uma paisagem entendida como fundo ou cenário e mais por uma paisagem operativa, atravessada por infraestrutura, circulação, contenção e cálculo. Isso afeta minha relação com a memória e com o arquivo.

Arquivo, para mim, nunca foi apenas um conjunto de documentos preservados. Ele também pode ser entendido como campo de reativação, como estrutura viva que muda de sentido conforme o presente muda suas ferramentas de leitura. Hoje essa ideia se amplia: o arquivo não é apenas lembrança organizada, mas também sistema de inscrição. O que fica registrado? O que é descartado? O que retorna? Sob quais condições técnicas uma imagem volta a operar?

Essa pergunta me acompanha em 2047 e em outras investigações recentes. A memória não aparece como depósito estável, mas como superfície submetida a mediações sucessivas. Uma obra pode reter algo do passado e, ao mesmo tempo, expor as máquinas que tornam essa retenção possível.

Pesquisa em voz mais próxima do trabalho

Sinto que este momento do ateliê pede uma voz mais próxima do trabalho real. Menos abstração elegante, mais precisão de cena. Menos ideia de fluxo contínuo, mais atenção aos dispositivos que regulam esse fluxo. Não para reduzir a obra à técnica, mas para reconhecer que técnica, espaço, imagem e linguagem já estão implicados no mesmo problema.

Meu interesse continua sendo construir obras que articulem memória, arquivo e presença. Mas agora essa articulação passa mais claramente por questões de escala, interface, duração e regime material. A obra deixa de ser somente um enunciado sobre passagem e se torna uma calibração entre máquina, território, imagem e corpo.

É essa mudança que quero acompanhar daqui para frente no Diário de Ateliê: uma escrita capaz de nascer do contato direto com as condições concretas da pesquisa, sem perder a dimensão ensaística que sempre atravessou meu trabalho.

Sigo desenvolvendo esse vocabulário dentro das obras em andamento, como parte do próprio processo artístico.