Tempo, arquivo e permanência
Nos últimos meses, venho percebendo com mais clareza que muitas das obras que desenvolvo já não querem existir como peças isoladas. Elas pedem uma condição mais ampla: uma ecologia temporal em que imagem, interface, som, espera, repetição e memória operem juntos. Tenho pensado menos em obra como objeto fechado e mais em obra como campo de duração.
Isso muda o centro do meu trabalho. Em vez de buscar apenas uma forma final, passo a construir sistemas de permanência. O que antes poderia parecer bastidor — contagem, atraso, reprise, fila, grade, silêncio, retorno — deixa de ser suporte invisível e passa a integrar a própria linguagem da obra. O tempo não aparece apenas como tema. Ele passa a funcionar como matéria.
Obras que respiram em cadências próprias
Esse movimento tem atravessado diferentes frentes do ateliê. Em 2047, por exemplo, me interessa a ideia de um arquivo que imprime o presente sem apagar sua procedência. Não se trata apenas de registrar, mas de criar uma relação entre memória e atualização, como se cada novo fragmento precisasse carregar consigo a marca do que veio antes. O arquivo, nesse caso, não é depósito: é operação viva.
Em TV TUBO, venho trabalhando a relação entre infância, transmissão, ritual e interface. O que me mobiliza ali não é simplesmente a nostalgia de uma linguagem televisiva, mas a possibilidade de fazer uma ambiência em que a experiência de navegação ceda lugar a uma experiência de permanência. Mais do que um menu, penso a obra como uma emissora imaginária, um espaço onde o tempo programa a percepção.
Em DRIFT, a questão se desloca para a continuidade. O que significa permanecer ativo dentro de um sistema? O que faz um corpo continuar? O que define, em termos de jogo, a passagem entre insistir, falhar, retornar e seguir? Essas perguntas me interessam porque elas deslocam o foco da imagem para a condição de duração que sustenta a experiência.
Também em Player 1, exposição em produção, essa investigação aparece na forma de uma articulação entre jogo, interface, memória e presença. Tenho pensado a exposição não como um conjunto de peças reunidas no espaço, mas como uma situação em que diferentes regimes de tempo entram em contato. Cada trabalho traz sua própria respiração, e o desafio é fazer com que essas cadências coexistam sem perder tensão.
Entre software e instalação
Uma parte importante da minha pesquisa artística passa pelo uso de software, interfaces e estruturas que se aproximam do universo dos jogos e dos sistemas programados. Mas eu procuro não reduzir esse campo a uma dimensão técnica. O software me interessa quando ele permite reorganizar percepção, memória e comportamento; quando deixa de ser ferramenta neutra e se torna ambiente, ritmo e forma.
Da mesma maneira, penso a instalação como algo que não se limita à ocupação espacial. Uma instalação pode ser também uma lógica de circulação, uma dramaturgia de atenção, um modo de organizar o que aparece e o que demora a aparecer. Às vezes, o mais importante em uma obra não é o que ela mostra de imediato, mas a maneira como ela ensina o olhar a esperar.
Por isso, venho tentando sustentar uma linguagem que preserve a estranheza do trabalho. Quando tudo é descrito apenas em termos de funcionamento, corre-se o risco de perder o que a obra tem de opaco, sensível e ambíguo. Meu interesse está justamente nesse ponto em que estrutura e imaginação deixam de ser opostos.
O ateliê como sistema de pesquisa
Tenho sentido cada vez mais o ateliê como um lugar de pesquisa continuada, onde obras distintas compartilham questões de fundo sem precisar ilustrar um tema único. O que une esses trabalhos não é uma narrativa centralizada, mas uma insistência comum: fazer o tempo operar de forma concreta.
Isso envolve lidar com arquivo, memória, repetição e interface não como assuntos separados, mas como elementos que podem construir uma experiência estética consistente. Em alguns momentos, uma obra nasce de uma imagem; em outros, ela nasce de uma regra, de uma espera, de um ciclo ou de um retorno. O que me interessa é quando essas estruturas deixam de ser apenas método e passam a produzir presença.
Nesse sentido, plataformas como szt.link também participam do meu pensamento sobre circulação e arquivo. Não apenas como forma de organizar acesso, mas como extensão pública de uma pesquisa que se move entre obras, documentos, imagens, textos e sistemas. A presença online, para mim, faz sentido quando não simplifica o trabalho, mas amplia suas camadas de leitura.
Fazer durar
Talvez uma das perguntas mais importantes do meu processo hoje seja: como fazer uma obra durar sem torná-la estática? Não penso duração como conservação passiva, e sim como capacidade de continuar produzindo experiência. Uma obra dura quando mantém uma tensão viva com o presente. Quando não se encerra no gesto inicial e continua reconfigurando o modo como é encontrada.
É por isso que venho entendendo meu trabalho menos como coleção de projetos independentes e mais como uma família de mundos. Cada obra organiza seus próprios ritmos, seus próprios modos de entrada e suas próprias regras de memória. Ao mesmo tempo, todas participam de uma pesquisa comum sobre continuidade, arquivo e presença.
No ateliê, essa percepção tem sido decisiva. Ela me ajuda a reconhecer que muitos elementos antes vistos como suporte já são, de fato, parte da obra. E talvez seja justamente aí que algo importante se consolida: quando a forma deixa de ser apenas aparência e passa a incluir também o tempo que a sustenta.
Sigo trabalhando para que cada obra encontre sua própria duração, em diálogo com o processo artístico que continua em andamento.