diário de ateliê

Memória, Presença e Aparato

Notas de ateliê sobre obras que precisam sustentar tempo, imagem e experiência

2026-07-28

O que está em jogo no ateliê

Nas últimas semanas, tenho pensado menos em produzir imagens isoladas e mais em construir aparatos capazes de durar. Essa mudança parece simples, mas altera profundamente o modo como uma obra nasce, se organiza e se apresenta. Em vez de tomar vídeo, projeção, interface, impressão ou instalação como linguagens separadas, tenho tentado perceber como elas se articulam dentro de uma mesma ecologia de trabalho.

Hoje me interessa menos a imagem como superfície fechada e mais a obra como sistema de presença. Isso inclui o que ela mostra, o que ela registra, o que ela retém, o que ela transforma e o que continua ativo quando o tempo passa. Em muitos casos, o centro da pesquisa deixa de ser a forma final e passa a ser a sustentação de uma experiência.

Esse deslocamento tem orientado tanto o desenvolvimento de novas obras quanto a revisão de materiais de arquivo. Aos poucos, começo a reconhecer uma continuidade entre trabalhos que, à primeira vista, poderiam parecer muito diferentes.

Memória como matéria

Memória é uma palavra recorrente no meu trabalho, mas não apenas como tema. Tenho pensado nela como comportamento material. Cada suporte se lembra de um jeito. Uma projeção guarda a duração da luz; uma impressão deposita tempo sobre o papel; uma interface organiza retornos e desvios; um arquivo redistribui contextos; uma instalação cria condições para que algo persista no espaço.

Essa percepção muda a própria construção da obra. Em vez de ilustrar a memória, procuro definir quais regimes de memória cada trabalho mobiliza. O que permanece? O que se apaga? O que pode ser reativado sem perder sua origem? O que muda de forma ao circular entre software, parede, texto, imagem e presença física?

Essas perguntas têm aparecido de maneiras diferentes em projetos recentes. Em alguns casos, o texto se aproxima da imagem. Em outros, a impressão se torna uma extensão do pensamento visual. Em outros ainda, o arquivo deixa de ser um depósito e passa a atuar como operador crítico, capaz de reorganizar a leitura de obras anteriores.

Presença antes de desempenho

Outro ponto decisivo da pesquisa atual é a presença. Nem toda imagem que funciona tecnicamente sustenta presença diante de alguém. Tenho voltado muitas vezes a essa diferença, porque ela é central para entender o que faz uma obra continuar viva no espaço.

Há situações em que um resultado mais rápido, mais fluido ou mais espetacular não produz necessariamente uma experiência mais forte. Às vezes, uma imagem com menos resolução técnica preserva melhor a intensidade de uma figura, de um ritmo ou de uma relação corporal. Isso me interessa muito. Não como limitação, mas como critério estético.

Tenho observado que certas formas mais porosas — mais próximas de plasma, pintura, textura ou instabilidade — suportam melhor a passagem do tempo do que imagens que prometem uma completude excessiva. Quando tudo parece resolvido demais, a presença pode se dissolver. Quando a matéria visual admite variação, ruído e espessura, ela frequentemente permanece mais aberta ao encontro.

No ateliê, isso tem levado a escolhas mais precisas. Nem sempre seguir adiante significa ampliar recursos. Muitas vezes significa retirar, cortar, simplificar e reencontrar o ponto em que a obra respira.

Voltar a construir

Sinto também um retorno muito concreto ao desejo de construir. Não apenas compor imagens, mas fabricar condições para que elas tenham corpo, espaço, densidade e relação. Essa volta à oficina, ao ajuste fino, à montagem e à materialidade tem sido importante para mim.

Há momentos em que a pesquisa exige menos delegação e mais presença manual. Modelar, texturizar, testar, mover, reorganizar, refazer: esses verbos voltaram a ocupar um lugar central. Não vejo isso como recusa de tecnologia, mas como uma tentativa de recolocar a técnica dentro de uma economia sensível mais exigente.

Quando uma obra pede corpo, não basta que ela seja convincente à distância. Ela precisa sustentar proximidade. Precisa manter tensão entre imagem e matéria. Precisa continuar interessante quando deixa de ser apenas hipótese e passa a ocupar uma parede, uma sala, uma interface ou uma instalação.

Essa dimensão construtiva está no centro do que venho preparando para Player 1. A exposição está em produção, e tenho pensado nela como um campo onde essas questões podem aparecer de forma mais visível: presença, aparato, tempo, montagem e memória como elementos inseparáveis.

O arquivo como força ativa

Também tenho me dedicado a olhar para o arquivo de outro modo. Não como fundo fixo, mas como estrutura viva. Em vários momentos, revisar materiais anteriores não significa apenas conservar. Significa recolocar uma obra em circulação com mais precisão, ajustando contexto, linguagem e posição.

Esse gesto me parece importante porque o trabalho não termina quando uma obra é apresentada pela primeira vez. Em muitos casos, ela continua se transformando na maneira como é lida, descrita, publicada e conectada a outras peças do conjunto. O arquivo, nesse sentido, não é uma zona neutra. Ele produz continuidade.

Penso muito nisso também na relação com o ambiente online. Plataformas como szt.link, assim como páginas, registros e publicações, não são apenas meios de divulgação. Elas participam da forma como a obra adquire duração pública. Organizar esse campo faz parte da pesquisa.

Uma família de obras

O que começa a se formar, para mim, é menos uma série de experimentos isolados e mais uma família de obras. Nem sempre unida por tema ou técnica, mas por uma gramática comum. Uma atenção à memória. Um compromisso com a presença. Uma vontade de construir aparatos que não sejam apenas funcionais, mas sensíveis ao tempo.

Talvez a pergunta que atravessa tudo isso seja simples de enunciar e difícil de resolver: quanto passado uma obra precisa carregar para continuar sendo ela mesma sem se reduzir ao arquivo? Tenho trabalhado dentro dessa pergunta, às vezes por imagem, às vezes por texto, às vezes por software, às vezes por instalação.

Não busco uma resposta única. O que me interessa é o modo como cada obra encontra sua própria forma de durar, e como esse processo continua abrindo caminho para o que ainda está por vir. Isso segue orientando, de maneira discreta, o trabalho em andamento.