diário de ateliê

Memória em Transformação

Notas públicas de ateliê sobre arquivo, duração e matéria nas obras em produção

2026-07-24

Uma lei de transformação

Nos últimos dias, percebi com mais clareza que não estou buscando um estilo estável ou uma aparência que possa ser reconhecida à distância. O que está em jogo no ateliê é outra coisa: uma lei de transformação. Quero que a matéria mude de estado sem perder a memória de onde veio, do que atravessou e de que decisões moldaram sua forma.

Essa pergunta tem orientado diferentes trabalhos ao mesmo tempo. Em vez de pensar cada obra como um objeto isolado, venho entendendo o ateliê como um campo onde certas operações retornam: receber uma matéria, transformá-la, testar seus limites, reconhecer o que a medida não alcança e preservar o rastro dessa passagem.

Não se trata apenas de produzir imagens, textos ou dispositivos. Trata-se de construir condições para que uma transformação permaneça legível.

Arquivo, corrente e duração

Em 2047 / Arquivo Terra Viva, essa questão ganhou corpo de maneira muito concreta. O texto existe como luz e como impressão. O que antecede a abertura da obra passa a compor um Arquivo; o que a instalação produz durante sua duração passa a formar uma Corrente. Essa distinção me interessa porque desloca a obra de uma imagem fixa para um regime de tempo.

A instalação não termina quando sua forma visual fica pronta. Ela continua quando o papel se acumula, quando a impressão enfraquece, quando o espaço passa a registrar uma insistência. Nesse processo, o aparato deixa de falar apenas de extração e passa a incluir o próprio consumo como parte do problema. Água, energia, processamento e gasto material deixam de ser bastidores invisíveis e entram na própria estrutura da obra.

O arquivo, para mim, não é depósito. É uma relação viva entre procedência, transformação e permanência. O que importa não é guardar tudo, mas manter visível a passagem entre origem e desvio.

Recusar o final correto

Em Consensual Hallucination, a unidade da obra deixou de depender de uma pele visual uniforme. Em vez de buscar homogeneidade, venho trabalhando com relações entre materiais, ritmos e verbos. Papel, feltro, cortiça, acetato, ripstop, retícula, açúcar e desenho podem pertencer ao mesmo campo sem parecerem feitos da mesma substância.

Essa decisão foi importante porque me fez recusar um tipo de encerramento técnico que, embora correto, parecia sem vida. Há momentos em que um sistema responde como se tivesse chegado ao fim, mas o resultado ainda não sustenta potência. Nesses casos, a tarefa não é aceitar o “final” como prova de conclusão. É reabrir a obra.

Tenho pensado muito nisso: autoria não aparece apenas no que afirmo, mas também no que recuso. Recusar uma síntese fácil, recusar uma aparência genérica, recusar a imagem que parece resolvida antes de realmente estar viva — tudo isso também compõe a forma.

Quando o instrumento vira linguagem

Em trabalhos como Dead Channel, Krea2 Instrument e Lucy, questões que poderiam parecer apenas técnicas se tornaram perceptíveis como linguagem. Compressão, memória, repetição, cache, medida e não-determinação já não funcionam apenas como infraestrutura. Eles passam a determinar comportamento, ritmo e leitura.

Isso me levou a um deslocamento importante: o resultado isolado deixou de bastar. Um frame sozinho nem sempre revela o que está acontecendo. Em muitos casos, só a duração mostra se há transformação real, se existe causalidade visível, se um movimento carrega memória ou apenas simula variação.

Por isso tenho me interessado menos pela imagem final como prova e mais pelas condições que permitem que uma imagem continue. O instrumento deixa de ser apenas ferramenta de bancada e começa a participar da própria composição. Quando um sistema mede, falha, corrige e recomeça, ele já não é neutro. Ele passa a integrar a obra como forma de pensamento.

Da imagem ao metabolismo

Talvez uma das mudanças mais profundas deste momento seja a passagem da forma ao metabolismo. Tenho pensado menos na obra como superfície e mais como circulação: o que entra, o que se transforma, o que permanece, o que sai.

Em 2047, isso aparece na pilha impressa que cresce no tempo. Em Lucy, aparece na maneira como a memória disponível condiciona o que pode durar. Em Consensual Hallucination, aparece na relação entre materiais distintos que coexistem sem perder diferença.

Esse movimento também altera meu lugar dentro do processo. Em vez de operar apenas como produtor de imagens, venho trabalhando cada vez mais como compositor de aparatos. Software, interface, instrução, protocolo, modo de exibição e operação passam a ser matéria estética. A obra começa a incluir as regras que permitem sua existência continuada.

Isso não reduz a dimensão sensível do trabalho. Ao contrário: amplia. Uma instalação não vive apenas de sua presença visual, mas da qualidade das relações que sustenta no tempo. Um software não vale apenas pelo que executa, mas pelo modo como organiza experiência, erro, insistência e memória.

Assinatura sem fórmula

Tenho tentado nomear com cuidado o que retorna entre obras sem comprimi-las cedo demais numa tese única. Existe um parentesco claro entre esses trabalhos, mas não quero transformar esse parentesco em uma nova fórmula universal.

Se há uma assinatura surgindo, ela talvez não seja visual. Talvez seja uma sequência de gestos: construir um aparato, fazê-lo agir sobre uma matéria, observar o que acontece, descobrir o que a medida não viu, retirar uma conclusão que não se sustenta e transformar essa falha em nova regra de composição.

Interessa-me especialmente o ponto em que um sistema entrega um resultado suficiente para si mesmo, mas insuficiente para a experiência. É nesse intervalo que a decisão artística reaparece. Não para negar a máquina, mas para exigir que ela mostre a transformação em vez de apenas apresentar o efeito.

Quero que a obra retenha a procedência sem se tornar ilustração da origem. Quero que mude sem apagar. Quero que dure sem se fechar cedo demais.

O que segue aberto

Ainda há perguntas sem nome definitivo, e isso me parece produtivo. Nem todo trabalho precisa resolver rapidamente seu gênero, sua categoria ou seu estatuto. Algumas obras pedem mais tempo antes de se deixarem fixar.

O que reconheço com mais nitidez agora é uma constelação de operações: memória material, duração, arquivo, transformação, aparato, medida e retração. Esses elementos não funcionam para mim como conceitos abstratos, mas como decisões concretas de composição.

Sigo interessado em construir obras que lembrem o que tocaram e que deixem visível o preço de suas próprias metamorfoses. É nessa direção que o trabalho continua, em processo, no ateliê.