diário de ateliê

Memória Material e Corpo de Obra

Entre instalação, software e arquivo, procuro uma unidade que não dependa de acabamento fixo.

2026-07-23

Uma unidade que não depende de pele única

Tenho pensado cada vez mais na possibilidade de uma obra sobreviver fora da minha mão sem perder a gramática que a fez nascer. Isso tem orientado meu trabalho de maneira muito concreta. Não se trata de repetir uma aparência, nem de buscar uma assinatura visual rígida. O que me interessa é outra camada de unidade: uma lógica de construção que consiga atravessar filme, instalação, software, arquivo e escrita sem se reduzir a um estilo fixo.

Esse movimento tem ficado mais nítido no ateliê. Aos poucos, percebo que algumas obras pedem autonomia, mas não independência completa. Elas querem circular, operar, durar e continuar produzindo sentido mesmo quando já não estão sendo conduzidas diretamente por mim. O problema então deixa de ser apenas formal. Passa a ser estrutural: como manter uma coerência viva entre linguagens diferentes sem transformar tudo na mesma superfície.

Consensual Hallucination e o problema da vida

Em Consensual Hallucination, essa questão aparece de forma muito clara. Tenho trabalhado para distinguir correção de vida. Às vezes uma imagem pode estar resolvida em muitos níveis e, ainda assim, não irradiar a força necessária. Quando isso acontece, o trabalho precisa voltar a abrir. Não como recuo, mas como refinamento de critério.

O que venho buscando ali é uma intensidade que não seja apenas técnica. Quero que certas presenças deixem de parecer solução visual e passem a operar como corpo, como energia, como acontecimento. Esse é um ponto importante para mim agora: uma obra não se torna mais forte porque elimina ruídos; muitas vezes ela se torna mais forte quando encontra o tipo certo de instabilidade.

Percebo também que o processo de imagem em movimento exige um segundo crivo. O primeiro organiza matéria, ritmo, legibilidade. O segundo verifica se ainda existe potência. Nem sempre esses dois níveis coincidem. Quando não coincidem, preciso escolher a vitalidade, mesmo que isso me obrigue a desmontar algo que parecia pronto.

2047 como ambiente de memória material

Em 2047, a operação é diferente, mas o núcleo é próximo. Aqui me interessa menos a construção de uma imagem isolada e mais a composição de um ambiente inteiro. Um ambiente em que memória material, aparato técnico, tempo e linguagem não possam ser separados com facilidade.

Penso na impressora usada, no papel contínuo, na parede cinza, na sucata eletrônica, no texto em luz e em tinta, no ruído mecânico, na permanência do funcionamento. Nada disso aparece para mim como suporte neutro. Tudo participa da obra. A infraestrutura não entra depois; ela já é linguagem desde o início.

Esse deslocamento tem sido decisivo na minha pesquisa. Durante muito tempo, o aparato costumava ser lido como meio de apresentação. Hoje, em vários trabalhos, ele já opera como sintaxe. A máquina deixa de ser ferramenta de bastidor e passa a compor a própria forma. O mesmo vale para o arquivo: não me interessa o arquivo como depósito, mas como força de organização, repetição, desgaste e reaparição.

Infraestrutura também fala

Talvez uma das mudanças mais importantes no meu processo seja justamente essa entrada da infraestrutura no campo da linguagem. Gosto de pensar que cabos, impressões, interfaces, superfícies, tempos de processamento, falhas e resíduos não são apenas condições externas da obra. Eles falam. Eles organizam a experiência. Eles dão espessura ao que poderia virar apenas imagem.

Isso me aproxima de trabalhos em que o software não aparece só como ferramenta invisível. Em muitos casos, ele é também forma de escrita, forma de montagem e forma de memória. O mesmo vale para o jogo, para a interface e para a instalação. São campos que me interessam menos como categorias separadas e mais como modos de compor um mesmo corpo de obra.

Quando esse corpo funciona, a unidade não está em uma pele repetida. Está em uma insistência. Em uma determinada maneira de lidar com duração, matéria, ruído, arquivo e presença.

Legibilidade pública

Internamente, sinto que essas passagens estão cada vez mais claras. As obras já pertencem ao mesmo território de pesquisa. O desafio agora é outro: torná-las legíveis para fora sem reduzir sua complexidade.

Isso exige uma escrita pública mais precisa sobre o processo. Exige também pensar como cada trabalho se apresenta no site, no arquivo, nas imagens, nos textos de contexto e nas formas de circulação. Não se trata de explicar demais, mas de criar condições para que a continuidade entre as frentes possa ser percebida.

Tenho me interessado por essa tarefa não como complemento da obra, mas como parte dela. A presença online, os registros, os fragmentos de processo, os modos de nomear e descrever os trabalhos também ajudam a construir leitura. Em certa medida, eles organizam a experiência futura das obras.

Por isso volto sempre à mesma questão: como fazer com que instalação, software, escrita e imagem em movimento sejam lidos como variações de uma mesma voz, e não como mudanças de assunto. Acho que a resposta passa por assumir com mais clareza aquilo que já está no centro da pesquisa: a recusa de uma unidade por acabamento, o interesse por trabalhos que continuam se transformando, a entrada da infraestrutura como linguagem e a memória material como forma.

O que permanece em movimento

Tenho a sensação de que estou menos preocupado em fechar definições e mais empenhado em construir condições de permanência. Permanência não como fixação, mas como capacidade de seguir operando no tempo. Uma obra viva não é a que permanece idêntica; é a que continua produzindo leitura, fricção e deslocamento sem perder sua estrutura profunda.

No ateliê, isso tem consequências muito concretas. Muda a forma como edito, como seleciono materiais, como penso montagem, como trato o erro e como organizo o arquivo. Muda também a maneira como imagino a relação entre presença física e circulação digital. Hoje, me interessa cada vez mais que uma obra exista em camadas: como instalação, como imagem, como texto, como sistema, como memória reativável.

É nesse cruzamento que sigo trabalhando agora, buscando uma forma de fazer com que cada peça sustente sua singularidade e, ao mesmo tempo, reforce a gramática comum que continua se formando no processo.