diário de ateliê

Gramática da obra

Entre filme, software e instalação, procuro uma unidade que não dependa de uma aparência única.

2026-07-22

Uma unidade que não depende de superfície

Tenho pensado cada vez mais na ideia de assinatura como uma gramática, e não como uma pele fixa. Durante muito tempo, a expectativa em torno da obra de um artista foi a de uma aparência reconhecível à distância: uma textura, uma paleta, um tipo de gesto, um acabamento recorrente. O que me interessa hoje é outra coisa. Quero que a unidade do trabalho apareça numa lógica mais profunda, capaz de atravessar meios diferentes sem exigir uniformidade visual.

Essa questão tem orientado meu trabalho no ateliê. Em vez de buscar uma identidade apoiada numa única solução formal, venho tentando construir relações entre desenho, filme, instalação, software, arquivo e escrita. Não como áreas separadas, mas como matérias distintas dentro de uma mesma pesquisa. O desafio não é fazer tudo parecer igual. O desafio é fazer com que diferenças reais convivam sem perder coerência.

Consensual Hallucination como campo de prova

Nesse momento, Consensual Hallucination é o lugar mais visível dessa investigação. Penso o filme como um campo onde regimes materiais diferentes podem se encontrar sem que um precise apagar o outro. Em vez de perseguir uma homogeneidade total, tenho buscado uma convivência entre câmera, legibilidade, travessia, memória e transformação.

Isso significa aceitar que cada trecho pode pedir uma densidade própria, um ritmo particular, uma espessura específica de imagem. Papel, feltro, acetato, tecido, açúcar, retícula e desenho real não entram no trabalho como ornamento ou citação. Eles entram porque cada material reorganiza a experiência do tempo e da percepção. O filme, para mim, não é apenas uma sequência de imagens, mas um ambiente de passagem entre estados materiais.

O que mais me interessa aí é justamente o momento em que a diferença deixa de parecer dispersão e passa a operar como estrutura. Quando isso acontece, a obra não depende de uma aparência única para existir como unidade. Ela passa a depender da força das relações que sustenta.

Quando o software entra no corpo da obra

Outro ponto importante desse processo está no modo como o software vem deixando de ocupar um lugar invisível. Tenho trabalhado com ferramentas e testes em que quantização, kernels, fidelidade, latência e benchmark não aparecem como bastidor neutro. Essas decisões técnicas influenciam diretamente o comportamento sensível da obra.

Isso me interessa porque desloca a técnica do lugar de suporte silencioso. Em muitos trabalhos contemporâneos, a infraestrutura permanece escondida, como se a experiência estética começasse só depois que a máquina já resolveu tudo. No meu caso, o que acontece antes também importa. A forma como uma imagem é processada, o tempo que ela leva para responder, a resolução de uma transição, a qualidade de uma deformação: tudo isso participa da linguagem.

Quando penso em instalação, interface ou imagem em tempo real, não consigo separar procedimento e forma. O código não é apenas um meio para chegar a um resultado. Ele é matéria de decisão estética. Ele determina presença, atraso, densidade, ruído, precisão e instabilidade. E são justamente essas qualidades que me interessam como construção poética.

Arquivo, memória e passagem

Há também uma dimensão de arquivo que atravessa tudo isso. Não falo de arquivo como depósito estático, mas como campo de reorganização contínua. Trabalho com fragmentos, camadas, inscrições, reaparições. Muitas vezes, uma imagem não volta para confirmar o que era; ela volta para se transformar em outra coisa.

A memória, nesse contexto, não é um tema ilustrado pela obra. Ela é um modo de montagem. Ela aparece na forma como materiais retornam, se deslocam e assumem funções novas. Um desenho pode virar índice de movimento. Um resto de textura pode virar ambiente. Um teste de interface pode sugerir a espacialidade de uma instalação. Um procedimento do ateliê pode abrir uma estrutura narrativa.

É por isso que tenho insistido em pensar a pesquisa artística como uma circulação entre suportes. O que nasce num campo não precisa permanecer ali. Muitas vezes, a força de uma obra está justamente na capacidade de passar de uma matéria a outra sem perder tensão.

Tornar a costura mais legível

Uma das tarefas mais importantes neste momento é tornar essa costura mais nítida para quem acompanha meu trabalho. Internamente, essas conexões já existem com bastante clareza. As peças já pertencem ao mesmo corpo de obra. Mas a percepção pública nem sempre acompanha a velocidade com que essas relações se formam no ateliê.

Por isso, tenho buscado produzir passagens mais legíveis entre pesquisa, filme, instalação, escrita e software. Não para explicar demais, nem para reduzir a complexidade do processo, mas para permitir que a continuidade apareça. Em vez de parecer mudança de assunto, quero que cada deslocamento seja percebido como mudança de matéria dentro da mesma voz.

Essa é uma questão importante também para minha presença online. Plataformas como o szt.link, assim como textos públicos e registros de processo, podem funcionar não apenas como divulgação, mas como montagem crítica da obra. Publicar não é só mostrar o que ficou pronto. É também construir as condições de leitura de um trabalho que se organiza em vários planos ao mesmo tempo.

O que está em produção agora

Sinto que há um amadurecimento em curso. Em Consensual Hallucination, estou interessado em consolidar blocos em que diferentes regimes materiais possam coexistir sem recaírem numa pele universal. Em paralelo, o desenvolvimento de ferramentas, testes e estruturas de software vem ganhando uma presença mais assumida dentro da pesquisa.

Também sigo pensando a relação entre interface e instalação, sobretudo na maneira como uma imagem responde ao corpo, ao espaço e ao tempo de uma sala. Não se trata apenas de projetar conteúdo, mas de desenhar comportamento. Esse comportamento depende tanto de decisões visuais quanto de decisões técnicas, e é nessa fricção que encontro uma parte importante do trabalho.

Ao mesmo tempo, a escrita pública continua sendo uma extensão necessária do ateliê. Escrever me ajuda a nomear passagens, tornar visíveis certas perguntas e construir uma leitura mais consistente do que está sendo feito. Não vejo essa escrita como comentário externo sobre a obra, mas como uma de suas formas de elaboração.

Uma mesma voz em matérias diferentes

No fundo, o que procuro é simples de dizer, embora demore para tomar forma: construir uma obra que possa mudar de suporte sem perder voz. Uma obra em que filme, desenho, arquivo, software, interface e instalação não concorram entre si, mas revelem aspectos diferentes de uma mesma gramática.

É esse movimento que tenho perseguido no ateliê: menos a repetição de uma superfície reconhecível e mais a afirmação de uma lógica própria, capaz de atravessar materiais, tempos e dispositivos. Sigo trabalhando para que essa linguagem apareça com cada vez mais precisão, dentro do processo artístico em andamento.