diário de ateliê

Forma, arquivo e exaustão

Notas de ateliê sobre matéria, interface e comportamento nas obras em produção

2026-07-12

Formas finitas para máquinas excessivas

Nos últimos meses, uma formulação tem organizado com mais nitidez o meu trabalho: a busca por formas finitas para máquinas excessivas. Tenho pensado nisso não apenas como conceito, mas como problema concreto de composição. Como dar corpo, ritmo e presença a sistemas que acumulam cálculo, repetição, desgaste e memória sem reduzir tudo a uma imagem explicativa?

Essa pergunta atravessa o que venho fazendo no ateliê. Em vez de representar processos de extração ou de acúmulo, tenho buscado situações em que texto, arquivo, fita, superfície, interface e aparato passem a operar como matéria. O interesse deixa de estar apenas no que uma obra mostra e passa para o modo como ela se comporta, insiste, falha, retém e exaure.

Esse deslocamento tem mudado minha relação com a forma. Já não me interessa resolver cedo demais uma aparência final. O que me mobiliza é construir condições para que uma obra encontre sua própria densidade, sem depender de uma alegoria imediata.

Entre arquivo, ruína e software

Uma parte importante da minha pesquisa hoje está na aproximação entre arquivo e comportamento. Não penso o arquivo como simples repositório de documentos, mas como campo ativo de montagem, atraso, ruído e sobrevivência. Da mesma forma, o software me interessa menos como truque visual e mais como regime: um conjunto de regras, repetições, limites e desvios que organiza a experiência da obra.

Quando esses elementos entram em contato, surge um espaço que me interessa muito: o da memória técnica. Não uma memória estável, limpa ou monumental, mas uma memória que carrega desgaste, compressão, perda e insistência. Nesse sentido, o hardware obsoleto também aparece para mim menos como nostalgia e mais como matéria crítica. Ele introduz tempo, resistência e fricção. Ele lembra que toda interface tem história e que toda máquina produz restos.

Tenho tentado fazer com que esses restos não sejam acessórios da obra, mas parte estrutural de sua composição. Documento, ruído, erro, repetição e latência não entram como comentário lateral. Entram como decisão formal.

Menos transparência, mais escolha

Outra transformação importante no meu processo é uma relação mais seletiva com o que aparece. Durante muito tempo, mostrar muito parecia uma forma de honestidade com o processo. Hoje, penso de outro modo. Nem tudo o que participa da feitura de uma obra precisa se tornar visível. O trabalho de escolher o que permanece em cena também é uma operação ética e formal.

Isso não significa ocultar o processo, mas dar a ele um contorno mais preciso. Tenho buscado distinguir melhor o que ainda é oficina, teste, desvio ou preparação, e o que já sustenta presença pública como forma. Esse corte é importante porque evita que o processo vire apenas making of e permite que o trabalho mantenha zonas de tensão, opacidade e condensação.

Na prática, isso muda a montagem, a edição e a escrita. Um material só permanece quando sua presença produz necessidade. Não basta ser interessante em si. Ele precisa alterar o comportamento geral da obra.

2047 e FLAMA

Esse momento da pesquisa aparece com força em trabalhos como 2047 e FLAMA. Em 2047, o desafio tem sido construir uma articulação entre voz, aparato, suporte e arquivo em que a obra não funcione como ilustração de uma tese, mas como corpo autônomo. Interessa-me que o conjunto opere com densidade própria, fazendo do texto, da repetição e da materialidade técnica um campo de real.

Em FLAMA, o caminho tem sido outro, embora conectado. O trabalho vem se afastando de uma leitura mais imediata do fogo como imagem central e se aproximando de um campo mais opaco, mais sólido e menos explicativo. Tenho pensado em presença, oclusão, massa, ambiente. A pergunta deixa de ser como mostrar um fenômeno e passa a ser como construir uma situação sensível em que a intensidade não dependa de evidência.

Vejo os dois trabalhos como movimentos diferentes dentro de uma mesma pesquisa. Em ambos, a obra precisa encontrar um ponto em que cálculo, ruína, memória e matéria deixem de ser temas e se tornem operação.

Exposição, circulação e responsabilidade formal

Com Player 1 em produção, tenho pensado bastante sobre o momento em que uma obra começa a gastar matéria diante dos outros. Expor não é apenas apresentar um resultado; é decidir que determinado sistema já pode entrar em circulação pública sem perder sua força interna.

Esse é um ponto delicado do processo. Existe sempre o risco de uma solução elegante aparecer cedo demais: uma voz que parece pronta antes de estar assentada, uma visualidade que convence antes de encontrar o comportamento certo, um documento que organiza demais aquilo que ainda precisa permanecer em movimento. Por isso, tenho tentado trabalhar com mais rigor na passagem entre pesquisa e forma pública.

Nem toda resolução é maturidade. Às vezes, ela é apenas antecipação. Tenho preferido insistir um pouco mais nos comportamentos, nos ritmos e nas fricções antes de encerrar uma obra numa aparência estável.

O que segue em aberto

O ateliê, para mim, continua sendo o lugar onde a obra aprende a suportar as próprias consequências. É onde uma interface deixa de ser desenho e vira situação. Onde um arquivo deixa de ser referência e vira estrutura. Onde a memória deixa de ser tema e passa a agir sobre a forma.

Tenho buscado obras que não dependam de excesso visual para sustentar intensidade, e que encontrem sua força justamente no atrito entre contenção e carga material. Talvez seja esse o centro da pesquisa agora: descobrir quanto uma forma pode reter sem se fechar, e quanto pode expor sem se dissipar.

Sigo trabalhando para que cada obra encontre esse limite interno e, a partir dele, avance no processo artístico em andamento.