O que tenho buscado no ateliê
Nos últimos meses, venho percebendo uma mudança importante no meu trabalho. As obras já não me pedem apenas imagem, estrutura ou linguagem. Elas pedem chão. Pedem um lugar de sustentação, uma matéria capaz de receber o tempo sem reduzir o processo a uma aparência.
Tenho pensado cada projeto como um corpo que precisa de condições específicas para existir. Isso muda a maneira como olho para software, papel, câmera, som, interface e instalação. Em vez de tratar esses elementos como suporte neutro, passo a entendê-los como parte da própria escrita da obra. O que aparece ao público não é separado daquilo que a mantém viva. Essa continuidade entre forma e sustentação tem orientado boa parte da minha pesquisa artística.
2047 e a inscrição do tempo
Em 2047, essa questão aparece de maneira direta. O trabalho deixou de me interessar apenas como projeção ou imaginação de futuro. O que me move agora é fazer com que ele ganhe espessura, ruído, repetição e acúmulo. Quero que a obra tenha estrato, que se aproxime de uma rotina material e não apenas de uma hipótese visual.
O papel contínuo tem sido central nesse percurso. Não como recurso decorativo, mas como modo de inscrever duração. Ele introduz na obra uma temporalidade concreta: impressão, dobra, acúmulo, transporte, desgaste, leitura em sequência. Há algo nesse fluxo que me interessa muito, porque desloca a obra do campo da imagem isolada para o campo do registro expandido.
Tenho buscado entender como esse tipo de material pode atuar como memória física, como arquivo em trânsito, como superfície onde uma ideia deixa de ser apenas conceito e passa a ocupar espaço. Em 2047, isso me parece decisivo: a obra precisa existir também como resto, pilha, fragmento e continuidade.
FLAMA, corpo e matéria computacional
Em FLAMA, a pesquisa segue por outro caminho, mas toca um ponto semelhante. O que procuro não é um efeito visual sedutor, e sim uma matéria computacional que possa ser sentida como campo real. Primeiro isso apareceu no fogo; depois nas esferas; agora, no encontro entre imagem, deformação e presença corporal.
Meu interesse está em chegar a um ponto em que software, sensor e gesto não sejam camadas independentes, mas uma substância única. Quando isso acontece, a interface deixa de ser mediação ilustrativa e passa a funcionar como condição sensível da obra. Não se trata apenas de responder ao movimento, mas de construir uma relação em que o corpo altera a imagem e também é alterado por ela.
Essa busca exige atenção ao detalhe técnico, mas não como fetiche de engenharia. O detalhe técnico importa porque é nele que a experiência ganha densidade. Um preset, uma câmera, um desvio de leitura, uma latência mínima: tudo isso pode reorganizar o modo como a obra respira. É nesse tipo de ajuste que a pesquisa deixa de ser abstrata e começa a se tornar presença.
Casa, forma e forças
Em Mirai, a questão assume uma escala diferente. Ainda que o projeto atravesse campos de estrutura, organização e apresentação pública, o problema que me interessa é profundamente artístico: como construir uma casa cuja forma não traia as forças que a pediram.
Penso aqui em casa não apenas como arquitetura, mas como pacto entre nome, uso, duração e superfície. Toda obra, em algum momento, precisa enfrentar essa pergunta: que forma consegue abrigar seu próprio impulso sem domesticá-lo? Nem sempre a resposta está na expansão. Muitas vezes, ela está em reconhecer o limite exato em que a forma sustenta a intensidade em vez de neutralizá-la.
Esse tipo de reflexão também atravessa minha relação com domínio, linguagem e presença online. O que publico, o que organizo e o que torno visível precisa corresponder ao estado real das obras. Não me interessa criar uma camada pública que funcione como embalagem distante do trabalho. Prefiro que a visibilidade nasça do próprio processo quando ele já reuniu consistência suficiente.
szt.link como arquivo vivo
É nesse contexto que szt.link tem voltado ao centro da minha atenção. Tenho pensado esse espaço menos como vitrine e mais como arquivo vivo. Um lugar onde obras, referências, fragmentos e conexões podem aparecer não como catálogo fechado, mas como grafo em movimento.
Esse deslocamento me interessa porque altera a lógica da exposição. Nem tudo precisa entrar imediatamente em circulação. Só faz sentido publicar aquilo que já conquistou corpo para sustentar link, nó e superfície. O arquivo, nesse caso, não é um depósito passivo. Ele é uma forma de montagem. Uma maneira de mostrar como diferentes obras, interfaces e pesquisas se encostam, sem apagar suas diferenças.
Também vejo aí uma possibilidade importante para a memória do trabalho. Em vez de registrar apenas resultados, posso tornar visíveis certas continuidades de linguagem: o modo como uma instalação encontra um software, como uma imagem pede uma estrutura, como uma obra retorna em outra sob nova forma.
Player 1 e a obra em produção
Em Player 1, que segue em produção, tenho me aproximado ainda mais dessa ideia de que a infraestrutura é parte da obra. Som, câmera, estação e sistemas de acompanhamento não entram como bastidores; entram como composição temporal. A experiência depende dessa costura entre presença física, acompanhamento técnico e ambiente sensível.
Isso me faz pensar que a manutenção não é um momento posterior à criação. Em muitos casos, ela já é criação. Cuidar da estabilidade de um sistema, do comportamento de uma imagem ou da persistência de um som é também esculpir a duração da obra. Há uma estética do funcionamento que me interessa cada vez mais.
O que está em jogo agora
Se eu tivesse de resumir o que está vivo no ateliê hoje, diria que estou construindo uma poética do endereço material. Cada obra parece perguntar onde pousa, que rotina a sustenta, que resíduo deixa e de que modo pode ser tocada sem se dissolver.
Essa pergunta tem orientado minhas decisões de forma, montagem, escrita e publicação. Ela também me ajuda a distinguir momentos diferentes do processo: quando algo ainda está em estado de teste e quando já conquistou densidade para ser compartilhado como obra. Nem tudo precisa aparecer cedo. Às vezes, o trabalho pede tempo para encontrar seu próprio regime de existência.
Tenho confiança de que essa etapa pode consolidar uma linguagem mais nítida no meu percurso, em que aparato, memória, instalação, software e matéria não se separam. É nessa direção que sigo trabalhando, deixando que cada peça encontre seu modo de durar dentro do processo artístico em andamento.