Entre arquivo e experiência
Tenho pensado cada vez menos na obra como um objeto isolado e cada vez mais como um campo de relações. Isso aparece no meu ateliê de muitas maneiras: no modo como organizo imagens, créditos, versões, documentos, interfaces e narrativas; no modo como uma instalação pode nascer de uma pesquisa; e também na forma como memória e técnica deixam de ser apenas bastidores para se tornarem matéria sensível.
Nos últimos meses, alguns projetos começaram a ganhar contorno mais nítido. OCEANVS, História do Som e Player 1 não me interessam apenas como temas diferentes. Vejo entre eles uma continuidade mais profunda: a tentativa de transformar sistemas de correspondência em experiência. Água, som, videogame, arquivo, proveniência, mediação técnica — tudo isso tem me levado à mesma pergunta: como fazer uma obra existir publicamente sem perder a complexidade de sua formação?
OCEANVS e a construção de uma genealogia
Em OCEANVS, uma das questões mais importantes passou a ser a definição da própria genealogia da obra. Não se trata apenas de organizar informações ou ajustar atribuições. Trata-se de restituir espessura ao trabalho, de reconhecer com precisão as camadas que o constituem e de fazer isso sem apagar sua força poética.
Esse movimento tem sido decisivo para mim porque ele desloca a conversa da superfície para o regime de existência da obra. Quem assina, quem materializa, quem narra, quem dá forma curatorial, quem constrói a mediação: tudo isso interfere no modo como a obra aparece no mundo. E, quando essas camadas são tratadas com clareza, não como burocracia, mas como linguagem, a própria obra ganha corpo.
Tenho me interessado por esse ponto exato em que a infraestrutura deixa de ser invisível e passa a operar como forma. Não para se impor sobre a experiência, mas para sustentar uma experiência mais verdadeira. Há um trabalho artístico possível nessa borda entre o visível e o estrutural.
Quando a técnica deixa de ser bastidor
Talvez uma das mudanças mais importantes do meu processo recente seja esta: a técnica já não aparece apenas como solução, ferramenta ou suporte. Ela começa a entrar no campo do sensível.
Quando penso em interface, banco de dados, imagem, nomenclatura, vínculo entre objeto e contexto, não estou pensando somente em organização. Estou pensando em percepção. Em como alguém encontra uma obra, navega por ela, reconhece uma origem, entende uma relação, sente uma continuidade. Esse percurso também compõe a experiência estética.
Isso me interessa muito porque desloca a discussão sobre tecnologia para longe do fetiche e também para longe da neutralidade. Software, interface e mediação nunca são apenas meios transparentes. Eles condicionam a leitura, aproximam ou afastam, simplificam ou aprofundam. No meu trabalho, quero que essa camada técnica seja precisa, mas também sensível; funcional, mas nunca vazia.
História do Som e a memória como forma
História do Som tem aberto um caminho especial dentro dessa pesquisa. Aos poucos, o projeto deixa de se organizar como uma sequência de referências e passa a me convocar como investigação sobre percepção, memória e aprendizagem de categorias.
Isso muda tudo. Em vez de pensar somente em cronologias ou dispositivos, passo a pensar em como o som produz reconhecimento, desvio, associação e formação de repertório. O que escutamos nunca é apenas um dado acústico. Escutamos também por memória, por hábito, por contexto, por imaginação.
Essa percepção me aproxima de uma ideia de obra em que o arquivo não é um depósito inerte, mas um campo ativo de reorganização da experiência. Um arquivo pode ser uma máquina de sensibilidade. Pode reabrir escutas, produzir novas relações, desfazer classificações rígidas. Quando isso acontece, pesquisa e obra deixam de ocupar lugares separados.
Player 1 e a memória do videogame como corpo navegável
Player 1, que está em produção, tem sido um espaço muito concreto para testar essas questões em público. O desafio não é apenas expor peças ou organizar informações sobre videogame. O que me interessa é construir uma experiência em que a memória do videogame apareça como corpo navegável.
Isso significa pensar com cuidado em alias, origem, imagem, crédito, contexto e forma de busca. Alguém pode lembrar um nome incompleto, um apelido, uma variação. A interface precisa acolher essa memória imperfeita sem reduzir o objeto à lógica fria de um inventário. Ao mesmo tempo, cada item precisa preservar sua proveniência e sua singularidade.
Esse equilíbrio é central para mim. Quero que a navegação seja clara, fluida e direta, mas sem apagar a densidade histórica de cada objeto. Quando a interface consegue sustentar essa tensão, a curadoria deixa de ser apenas seleção e passa a se tornar gesto de relação. O arquivo deixa de ser fundo documental e se torna experiência.
Uma família de obras
Tenho a impressão de que não estou desenvolvendo apenas projetos separados, mas uma família de obras. Obras em que memória, autoria e mediação técnica deixam de ser rodapé e passam a integrar o campo sensível.
Em cada caso, a pergunta retorna de forma diferente. Como uma obra circula sem perder sua verdade? Como um arquivo pode permanecer vivo? Como uma interface pode mediar sem empobrecer? Como a organização de informações pode produzir presença, e não apenas controle? Essas questões aparecem no ateliê como decisões muito concretas, mas também como orientação poética.
Por isso tenho dado atenção crescente às formas públicas de apresentação: títulos, descrições, modos de indexação, relações entre imagem e texto, percursos de acesso, conexões entre obras e pesquisa. Não vejo isso como camada secundária. Vejo como parte do trabalho.
Forma pública e continuidade
Há um desafio constante em transformar pensamento em forma pública sem perder precisão nem intensidade. Nem sempre isso acontece no mesmo ritmo da pesquisa, mas tenho buscado construir condições para que a obra apareça com mais nitidez e autonomia.
Meu interesse, hoje, está muito menos em explicar conceitos do que em fazer estruturas sensíveis operarem. Quando uma pessoa encontra uma imagem, reconhece uma relação, entende um vínculo e navega por uma memória sem atrito desnecessário, algo da obra já está acontecendo ali.
Sigo trabalhando para que essa continuidade entre obra e infraestrutura seja cada vez mais legível. Também por isso tenho reunido processos, referências e desdobramentos em diferentes frentes, inclusive em torno do meu arquivo e das conexões que organizo em szt.link.
No fundo, o que procuro é uma forma pública em que memória, técnica e imaginação possam coexistir sem se neutralizar — e esse segue sendo o eixo do meu processo artístico em andamento.