Um campo de presença
Tenho pensado cada vez mais no momento em que uma obra deixa de ser apenas objeto e passa a operar como situação. Não me interessa somente aquilo que a imagem mostra, nem apenas a engenharia que sustenta uma experiência. O que me move é o ponto em que presença, gesto e decisão começam a compor uma forma.
Em muitos trabalhos, esse ponto aparece como detalhe técnico. No meu processo, ele tem ganhado espessura de linguagem. Um corpo entra em cena, mede uma distância, escolhe um lado, sustenta um gesto, atravessa uma interface. Nada disso é apenas funcional. Esse percurso já é parte da obra.
Tenho entendido melhor que minha pesquisa não se organiza apenas por temas ou suportes, mas por passagens: da aproximação ao engajamento, da hesitação à entrada, do sinal ao reconhecimento, do arquivo à circulação pública. Há uma dramaturgia mínima nesses instantes, e ela me interessa tanto quanto a forma final.
Player 1 / DRIFT
Em Player 1 / DRIFT, que está em produção como exposição, essa questão aparece de modo muito nítido. O público não apenas aciona um sistema: ele ocupa um campo. O corpo conta. A orientação espacial conta. O gesto conta. A obra depende de uma presença que precisa ser lida, reconhecida e autorizada.
Esse tipo de experiência me leva a pensar que o jogo, a instalação e a interface não são camadas separadas. Eles podem funcionar como uma só superfície sensível. O launcher, por exemplo, não é apenas uma ante-sala utilitária. Ele pode ser o prólogo da obra, um lugar de atenção e preparação. O sensor não é apenas instrumento de captura. Ele participa da construção de um limiar entre aparecer e entrar.
O que me interessa aí não é esconder a mediação, mas coreografá-la. Em vez de apagar o mecanismo, procuro dar forma ao instante em que ele se torna perceptível. Quando isso acontece, a técnica deixa de ser bastidor e passa a integrar a experiência estética.
Interface como comportamento
Tenho buscado fazer com que a interface não seja só uma pele visual, mas um campo onde comportamentos reais se tornam visíveis. Uma interface pode explicar, conduzir, reter, liberar. Pode ser clara sem ser neutra. Pode ser legível sem perder densidade.
Esse interesse aparece em obras, protótipos, estudos de software e também na maneira como organizo materiais de pesquisa. Não vejo mais essas frentes como compartimentos isolados. Quando um sistema decide se algo pode avançar, quando uma estrutura filtra o que aparece, quando um gesto produz passagem, há ali um mesmo problema formal.
Isso me aproxima de uma pergunta recorrente no ateliê: como fazer com que uma operação concreta também carregue uma experiência? Em outras palavras, como fazer com que uma decisão de interface tenha peso poético? Tenho tentado responder a isso trabalhando menos a ilusão de fluidez e mais a qualidade dos limiares.
Arquivo, edição e circulação
Outra parte importante do meu processo está no arquivo. Não penso o arquivo apenas como depósito de materiais, mas como uma membrana ativa entre memória, edição e circulação. Organizar obras, textos, imagens, notas e relações não é um gesto secundário. É uma prática que também produz forma.
Projetos como o szt.link me ajudam a ver isso com clareza. Um grafo, uma lista, uma entrada, uma conexão: cada elemento carrega uma possibilidade de leitura e deslocamento. O arquivo não serve somente para guardar o passado; ele pode estruturar o modo como uma obra continua se movendo no presente.
Tenho me interessado especialmente por esse ponto em que edição e interface se tocam. Editar não é só cortar ou selecionar. Editar é desenhar condições de aparecimento. O que vem à superfície? O que fica em suspensão? O que pede mais tempo? O que se torna público? Essas perguntas fazem parte do trabalho tanto quanto a construção de uma instalação.
Técnica e ritual
Há uma zona que me atrai muito hoje: aquela em que técnica e ritual começam a se confundir. Não no sentido de mistificação, mas na percepção de que certos procedimentos repetidos produzem intensidade. Aproximar-se, aguardar, posicionar-se, confirmar, entrar. Esse encadeamento simples pode ganhar força simbólica quando a obra o assume como linguagem.
Percebo que vários trabalhos meus, mesmo quando parecem muito diferentes entre si, compartilham essa sintaxe. Um corpo pode virar cursor. Um gesto pode virar confirmação. Uma interface pode virar soleira. Um arquivo pode virar espaço de montagem. Uma instalação pode se comportar como uma passagem.
Essa continuidade me interessa porque aponta para algo maior do que um conjunto de projetos. Aos poucos, reconheço uma ecologia de formas em que presença, seleção, retenção e liberação aparecem como movimentos recorrentes. Isso não reduz as obras a um método; ao contrário, abre um campo onde elas podem se reconhecer sem se repetir.
Uma linguagem em formação
Talvez o principal desafio agora seja fazer com que esse campo seja percebido para além de sua dimensão operacional. Quando um ajuste técnico resolve um problema de experiência, ele não é apenas manutenção. Quando uma interface muda o modo de entrar numa obra, ela não é apenas utilitária. Quando um arquivo reorganiza relações, ele não é apenas estrutura de apoio.
Tenho tentado sustentar essa evidência: há uma linguagem em formação. Ela não depende de declarar-se em voz alta, mas de se afirmar pela coerência entre corpos, sistemas, imagens, textos e passagens. É nesse terreno que venho trabalhando.
Mais do que produzir objetos isolados, quero desenvolver situações em que o público perceba que entrar, escolher, aguardar, atravessar e lembrar também são matérias da obra. Esse é o horizonte que orienta meu ateliê hoje, e sigo acompanhando como essa poética dos limiares se desdobra no trabalho em andamento.