diário de ateliê

Poética das Bordas no Ateliê

Pesquisa artística entre arquivo, interface, instalação e memória

2026-06-12

Uma forma que começa pelas bordas

Tenho pensado cada vez mais em uma poética das bordas. Não como tema, mas como modo de trabalho. Em vez de partir de um centro estável e distribuir sentido a partir dele, venho percebendo que algumas das questões mais vivas no ateliê aparecem primeiro nas margens: em superfícies curtas, em testes de linguagem, em estruturas de arquivo, em interfaces, em dispositivos de exposição, em formas de edição que ainda não se apresentam como obra acabada, mas já carregam sua força.

Essa percepção tem reorganizado meu processo. O que antes poderia parecer disperso — anotações, sistemas de registro, estudos de software, montagem de aparato, pesquisa de acervo, escrita editorial — hoje se mostra como variações de uma mesma pergunta. Como dar forma a uma energia sem reduzir sua complexidade? Como construir uma linguagem que não imponha um desenho externo à matéria, mas aprenda com o comportamento que ela já apresenta?

Arquivo, obra e comportamento

Tenho me interessado menos por declarar um tema único e mais por construir uma ecologia de meios. Isso significa entender que arquivo, obra, texto, interface e instalação não competem entre si. Eles podem compartilhar a mesma ética formal. Gosto da ideia de que cada suporte pede uma densidade específica, uma maneira própria de respirar, e que o trabalho do ateliê é perceber essa medida com precisão.

Nesse sentido, o arquivo deixou de ser apenas um reservatório do passado. Ele se tornou um campo ativo de decisão. Não me interessa tratá-lo como nostalgia nem como simples conservação. O arquivo é matéria viva quando revela regimes técnicos, interrupções, continuidades, riscos e retornos. Ele mostra que toda imagem tem condições de existência, e que essas condições também falam.

A pesquisa com CRT, por exemplo, me leva justamente a essa dimensão material da imagem. Não se trata de fetichizar uma tecnologia, mas de escutar o que ela implica: tempo, ruído, desgaste, frequência, presença física. Há uma história sensível inscrita nessas superfícies, e ela continua produzindo pensamento quando colocada em relação com instalações, interfaces e novos circuitos de exibição.

Entre software e instalação

Também venho me aproximando de um ponto em que aparato e linguagem deixam de ser coisas separadas. Esse deslocamento aparece em projetos nos quais software, imagem e dispositivo expositivo não se organizam em camadas independentes. O que me interessa é quando a interface já é gesto, quando o sistema já é narrativa, quando a montagem já pensa.

Por isso, tenho olhado com atenção para trabalhos em que a forma final depende tanto da estrutura invisível quanto do que aparece na superfície. O software não entra como ferramenta neutra; ele participa da composição. O jogo, a navegação, a resposta da máquina, a maneira como o público encontra uma informação ou uma imagem: tudo isso pode ser tratado como linguagem artística.

Em Player 1, exposição confirmada e atualmente em produção, essa convergência se torna especialmente clara para mim. O projeto me permite articular pesquisa visual, lógica de interface, espacialização e crítica da imagem em um mesmo campo. Não vejo a exposição apenas como apresentação de resultados, mas como lugar onde diferentes camadas do processo passam a conviver de forma legível.

Nomear a linhagem

Uma questão importante para mim agora é assumir melhor a genealogia comum entre trabalhos que, à primeira vista, poderiam parecer independentes. Muitas vezes, uma peça nasce de um problema técnico, outra de uma necessidade editorial, outra de uma pesquisa de acervo, e outra de uma situação expositiva. Mas, quando observo essas frentes lado a lado, reconheço uma mesma família sensível.

O risco de não nomear essa linhagem é que cada trabalho passe como ocorrência isolada, como solução específica, quando na verdade existe um corpo autoral em formação atravessando tudo isso. Tenho vontade de tornar essa continuidade mais visível, inclusive no modo como apresento processos, textos e obras online.

Nesse ponto, plataformas como szt.link me interessam não apenas como presença pública, mas como extensão do ateliê. Um site, um arquivo ou uma publicação recorrente podem funcionar como espaço de montagem, e não apenas de documentação. A maneira como uma obra é contextualizada, conectada e atualizada também participa da sua forma.

Membranas entre público e processo

Outra camada decisiva do meu trabalho hoje está nas membranas entre processo, apresentação e circulação. Tenho buscado formas de escrever e mostrar o trabalho sem simplificá-lo, mas também sem depender de opacidade. Isso pede uma linguagem que consiga sustentar nuance e clareza ao mesmo tempo.

No ateliê, muitas vezes a pesquisa se move por aproximações, fragmentos e descontinuidades. Tornar isso público não significa expor tudo, e sim encontrar a medida certa de elaboração. O diário de ateliê, nesse sentido, me interessa como espaço de pensamento em andamento: um lugar onde ideias podem aparecer ainda em movimento, mas já com nitidez suficiente para entrar em relação com outras obras e leituras.

Tenho aprendido que essa passagem não é automática. Ela exige edição, escolha de vocabulário, atenção ao ritmo e ao modo de endereçamento. Também exige reconhecer que a linguagem pública não é um resumo do processo, e sim uma nova instância da obra.

Uma obra distribuída

Hoje me parece cada vez mais evidente que o trabalho não está concentrado em um único objeto. Ele se distribui. Aparece em obras, textos, interfaces, instalações, arquivos e sistemas de apresentação. Isso não significa dispersão; significa sintaxe. O desafio é fazer com que essa sintaxe seja perceptível sem perder sua abertura.

Se essa direção continuar amadurecendo, vejo a possibilidade de consolidar um conjunto em que o diário editorial do ateliê, a cartografia viva de szt.link e a frente expositiva de Player 1 e das pesquisas com CRT compartilhem uma mesma lógica. Não como formatos paralelos, mas como desdobramentos coerentes de uma única investigação.

No fundo, sigo interessado na mesma questão: como uma forma pode permanecer fiel à intensidade que a gerou. É essa pergunta que continua orientando o trabalho no ateliê, de modo discreto e persistente.