diário de ateliê

Limiar e Interface

Notas de ateliê sobre imagem, espera e as condições de aparecimento da obra

2026-06-10

O que tenho buscado tornar visível

Nos últimos meses, tenho percebido com mais clareza que minha pesquisa não se organiza em torno de uma obra isolada, mas de um campo de relações entre imagem, espera, uso, falha e presença. Tenho trabalhado menos na ideia de representação e mais nas condições que permitem que uma experiência aconteça. Interessa-me esse instante em que uma interface ainda não se estabilizou, em que uma imagem ainda depende de um suporte frágil, em que a atenção do corpo antecede o gesto e em que a máquina revela algo de sua própria lógica.

Esse deslocamento tem mudado a forma como penso instalação, software, jogo e exposição. Em vez de tomar esses formatos apenas como meios, tenho procurado tratá-los como camadas de linguagem. O que aparece para o público não é somente um resultado visual: é também o regime de espera, o intervalo, a superfície técnica, a tradução entre dispositivo e corpo.

A materialidade antes da imagem

Uma parte importante desse processo passa pelo interesse contínuo por monitores CRT, circuitos, padrões de exibição e comportamentos materiais da imagem. Não vejo esses elementos como nostalgia técnica, mas como estruturas vivas de percepção. Quando trabalho com um CRT, não estou apenas lidando com um suporte antigo. Estou lidando com uma imagem que nunca se separa completamente do risco, da instabilidade e da espessura física que a sustenta.

Isso transforma a conservação, o ajuste e a montagem em decisões de linguagem. O reparo, a calibração, a luminosidade, o desgaste e o ruído deixam de ser bastidores e passam a constituir a própria obra. Tenho me interessado cada vez mais por esse ponto em que a superfície técnica deixa de ser neutra e se torna legível como parte da experiência estética.

Interface como espaço de presença

Também tenho pensado muito na interface não como ferramenta transparente, mas como zona de negociação. Uma interface nunca é apenas um caminho eficiente entre comando e resposta. Ela organiza tempo, condiciona expectativa, cria fricções e distribui atenção. Por isso, meu interesse pelo software não está restrito à funcionalidade. O software me interessa como dramaturgia da relação entre corpo e sistema.

Nesse contexto, o que normalmente seria considerado prévio ou secundário ganha importância: o attract mode antes do uso, a inatividade, a latência, a instrução parcial, a promessa de acesso, a entrada ainda não completada. São momentos em que a experiência ainda não se resolveu, e talvez por isso mesmo se torne mais reveladora.

Tenho buscado construir trabalhos em que essas bordas possam aparecer sem excesso de explicação. Não se trata de explicar o mecanismo inteiro, mas de escolher o limiar exato em que ele se torna sensível.

Player 1 em produção

A produção de Player 1 tem sido um eixo decisivo desse pensamento. Entendo essa instalação como uma forma pública de concentrar questões que venho desenvolvendo há algum tempo: presença corporal, atenção compartilhada, regime de visita, temporalidade do jogo e espessura técnica da experiência. O quiosque, a lógica offline, a duração e o modo de encontro com o dispositivo não são apenas soluções de montagem; são parte constitutiva do trabalho.

Em Player 1, tenho procurado construir uma situação em que o visitante se relacione com o sistema de maneira direta, mas sem que essa relação seja reduzida à transparência do uso. Interessa-me que a obra mantenha alguma opacidade, algum atrito, alguma evidência de que toda interação é mediada. Essa mediação não precisa ser escondida. Ela pode ser o próprio lugar onde a obra acontece.

Arquivo, circulação e forma pública

Outro aspecto central da minha pesquisa recente é a relação entre arquivo e circulação. Tenho pensado bastante sobre como uma obra passa a existir publicamente: em que momento um processo técnico se torna imagem, texto, placa, registro ou interface de acesso. Nem tudo que nasce no ateliê precisa aparecer da mesma forma, mas tudo me faz perguntar qual é a forma pública adequada para cada experiência.

É nesse sentido que plataformas, páginas, sistemas de navegação e estruturas como o szt.link entram no meu campo de trabalho. Não os vejo apenas como ferramentas de divulgação, mas como extensões da prática artística. O arquivo não é, para mim, um depósito passivo. Ele pode funcionar como montagem, como espaço de leitura e como dispositivo de memória.

Quando uma prova técnica, uma captura, um esquema ou um fragmento de software encontra sua forma pública, ele deixa de ser apenas documento. Passa a participar de uma ecologia da obra.

Menos explicação, mais precisão

Tenho tentado reduzir a distância entre pesquisa e apresentação sem transformar tudo em comentário. Existe sempre o risco de que trabalhos baseados em estrutura, processo e dispositivo se tornem excessivamente descritivos. Não é isso que me interessa. O desafio é dar visibilidade ao que sustenta a experiência sem sufocar a experiência com informação.

Quero que cada peça preserve sua capacidade de convocar atenção, estranhamento e leitura aberta. Ao mesmo tempo, quero assumir com mais clareza a coerência entre trabalhos que, vistos de fora, poderiam parecer separados: instalações, interfaces, edição de imagem, recuperação técnica, sistemas de exibição, escrita e jogo. Para mim, tudo isso vem se articulando como um corpo de pesquisa sobre modos de aparição.

O que segue

Hoje reconheço com mais nitidez que meu trabalho se move em direção a uma linguagem dos limiares: o ponto em que a imagem depende da máquina, o ponto em que o corpo encontra a interface, o ponto em que o arquivo se torna presença, o ponto em que a obra revela a condição que a torna possível. É nesse espaço que tenho trabalhado, entre materialidade e acesso, entre operação e figura, entre memória e atualização.

Sigo desenvolvendo essas relações no ateliê, deixando que cada obra encontre a forma pública mais justa para continuar esse processo.